bela adormecida





















De São Paulo a Frankfurt, de Frankfurt a Bucareste. Pausa de dois dias para pré-produção e então sete horas de carro até Hunedoara, cidadela na Transylvania onde fica o Castelo de Corvinestilor. Isso tudo atrás de uma autêntica atmosfera de conto de fadas. O projeto? Ford para a JWT. Direção: Dan Gifford & Rogério Velloso. Direção de criação: Vico Benevides / criação: Rafael Freire, Caio Lekecinskas, Raphael Taira. [role a página para mais informações sobre o processo de realização]





Logo abaixo, os concepts que eu fiz (os exteriores inspirados em Assassin's Creed). Foram exercícios de visualização para agência, cliente e equipe na Romênia.
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Making of:








MAPA DE UM PROJETO_por Rogério Velloso





Você ainda não tem muita idéia do que vai encontrar enquanto serpenteia por ruas estreitas de uma pequena cidade chamada Hunedoara, em plena Transylvania, Romênia. A história - uns dizem lenda, outros juram que aconteceu - do Conde Vlad foram contadas em diversas versões enquanto completávamos umas sete horas de van desde Bucareste, capital da Romênia. O castelo Hunyadi, construído no século XIV, surgiria ali na frente, completamente improvável depois de indústrias abandonadas e torres de alta tensão. Ia começar o primeiro tech scout do projeto “Bela Adormecida” para a Ford, criado pela JWT. Primeiro foram os seus telhados pontudos, logo depois dos primeiros muros exteriores. E então surgiu a ponte de madeira comprida, toda feita de entalhes há centenas de anos e que atravessava um vale fundo com um pequeno riacho lá embaixo. Dois dias depois, por ela passaria um dublê do Príncipe Encantado a galope em um cavalo branco, paramentado com arreios medievais, inspirado nos desenhos de Assassin’s Creed.

Eu olhava para Dan Gifford e entre nós a certeza de que ele havia proposto a locação mais incrível para o filme criado por Vico Benevides, Rafael Taira e Caio Lekecinskas, com direção de criação de Vico Benevides, da JWT. O roteiro contava a história de uma Bela Adormecida que teve a incrível chance de escolher entre três finais felizes para a sua conhecida maldição no conto de fadas. Era a analogia perfeita para a Promoção Final Feliz de Ford. Dan foi certeiro quando propôs rodar o filme fora do Brasil em uma locação que realmente lembrasse um conto de fadas. Of course! E o Castelo Hunyadi, ou Castelul Corvinilor (do Corvo) em romeno, era perfeito. Fiquei impressionado ao ver como se encaixava nos nos primeiros concepts que eu havia feito dias antes.


Um dos aspectos mais interessantes deste projeto foi rodá-lo com um grau de sofisticação e realismo que fez toda a diferença. O enorme salão de pedra escolhido como palco para a ação principal do filme foi decorado suntuosamente por Simona Paduretu, uma incrível e discreta diretora de arte romena, que foi aos mínimos detalhes: as velas nos candelabros eram derretidas e esculpidas com maçarico para darem o aspecto de que estavam ali acesas há tempos, ajudantes espalhavam camadas de pó e teias sintéticas que você poderia jurar que eram de aranhas.

O planejamento técnico foi rigoroso, já que estávamos trabalhando à distância ainda em São Paulo coordenando a equipe da Digital Studios na Romênia. Os finais felizes alternativos envolviam imagens e personagens que deveriam ter grande impacto: um guerreiro bárbaro montado em um gigantesco felino e um príncipe das Arábias que chegava voando em um tapete mágico com um mico amestrado alojado no ombro.


Para a sequência do guerreiro, estabelecemos dois processos simultâneos por segurança e para que fosse possível escolher o melhor resultado. Num primeiro caminho, com a parceria da Moca Estúdios, desenvolvemos um modelo em 3D bastante sofisticado de um tigre dente de sabre. A idéia era deixá-lo mais, digamos, “primitivo”. Com computação gráfica, conseguiríamos dar mais liberdade de ação para o personagem. O animal poderia “entrar” rompendo a porta gigantesca do salão com grande estardalhaço (não acreditei quando Dan sacou esta idéia, pediu e a produção realmente providenciou a remoção de uma porta de mais de 3m de altura que deveria ter sido colocada ali nos idos de 1400 e alguma coisa). O segundo caminho era mais limitador do ponto de vista de ação mas, em compensação, funcionaria muito bem no quesito realismo: usar uma imagem de leão real filmado diante de um fundo verde, reescalá-la e fazer a composição digital com a cena filmada com o ator no castelo. Na locação, Zhan Kruger, o ator romeno que assumiu o papel, surgia montado em uma estrutura móvel verde, que tinha as dimensões e altura que queríamos. Mais engraçado que feroz: parecia um cavalo mecânico de feira, mas funcionava.

O Príncipe das Arábias (Mattei Negrescu) e seu tapete voador foram uma aventura à parte. Vasculhando por uma série de desenhos, pinturas, tapeçarias (alguns bem antigos que davam conta deste objeto mítico), tentávamos visualizar como seria um movimento interessante de chegada a partir do conhecimento da lenda. O tapete é como uma superfície fluida que se moveria interagindo com o vento mas que deveria ter alguma rigidez central que suportasse o peso de um viajante. Numa gravura do séc XIX vi o setup que inspirou a solução: nosso personagem viajaria em pé e o seu comportamento e equilíbrio seriam o de um surfista (claro que neste momento pulei para os desenhos do Surfista Prateado de Jack Kirby). Esta nova abordagem daria uma dinâmica bem interessante que nos parecia mais convincente. Mas como realizar este movimento no set? Até o uso de longboards descendo por uma rampa foi aventado (poxa, mas então o sujeito, além de ator, teria que saber andar de skate?). A equipe de maquinária na Romênia chegou a pensar em estrutura de cabos (mas isso vinha na direção contrária do que procurávamos: o Príncipe estava pousado e não pendurado). Então me veio o estalo: “- vamos usar uma grua”. Foi construída uma base bem pequena, com diâmetro apenas suficiente para abrigar os pés do ator. E para dar segurança de movimentos para ele, uma estrutura de apoio que seria posteriormente apagada em pós-produção. Com a grua sobre trilhos ganhávamos os eixos de movimento vertical, horizontal e ainda uma circularidade que daria a elegância para o pouso. O salão felizmente tinha espaço e altura suficientes para isso - o ponto inicial estava a uns três metros de altura. A luz de David Luther e o cenário eram tão magnéticos que resolvemos recortar o personagem e apagar a grua na mão, por rotoscopia, ao invés de interferir com fundos verdes. O tapete foi depois criado em 3D.

A alquimia final aconteceu na pós-produção na Dínamo, supervisionada pelo Saulo Silva, que também esteve conosco na Romênia de olho no lance para termos alguma certeza de que tudo funcionaria. O toque final do acabamento veio com a cor de Márcio Pasqualino na Psycho’n’Look.

Ao cruzarmos pela primeira vez a ponte de madeira rumo ao interior do Castelo naquele tech scout, logo após o gigantesco portão à esquerda sob a torre principal, uma passagem para o subsolo era indicada pela sinalização turística: “câmara de tortura”. Estávamos no lugar certo.

Era real demais.
















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