daquele
instante
em diante

realização
INSTITUTO ITAÚ CULTURAL
MOVIEART
direção
ROGÉRIO VELLOSO





documentário longa metragem


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mais sobre Itamar e o filme︎


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São Paulo, 110 min, 2011




"Daquele Instante em Diante" documenta em profundidade a vida e a trajetória artística do músico e poeta Itamar Assumpção, morto em 2003 de câncer aos 53 anos. Ele foi um dos pilares de um momento da música popular brasileira que se convencionou chamar de "Vanguarda Paulista". Dono de uma personalidade vulcânica, Itamar construiu sua obra magistral de forma praticamente independente, à revelia da indústria cultural - e estabeleceu com ela, desde cedo, uma relação turbulenta. Íntegro e muitas vezes bem intransigente, sua postura lhe custou o rótulo de "maldito" e acabou por colocá-lo à margem (muitas vezes de forma dolorosa) do que se entendia por "sucesso comercial" (sucesso Itamar fazia a seu modo, com shows lotados e longas temporadas em São Paulo, turnês pela Europa...).

Partindo de uma pesquisa extensa que resultou em mais de 250 horas de imagens (muitas antológicas e inéditas) e de um mergulho no universo pessoal deste incrível artista, o filme apresenta suas várias facetas: o compositor, poeta, arranjador, o performer apaixonado por orquídeas, o pai de família, o iconoclasta, refém de clichês como o "gênio incompreendido". Itamar vem à tona através de uma trama poética, intuitiva, onde fatos e depoimentos falam mais alto que idéias preconcebidas.

O filme foi lançado em 05 de julho de 2011 e esteve em cartaz nos Cinemas Itaú em várias cidades brasileiras. Foi o filme de abertura do Festival INDIE 2011. Participou de várias mostras incluindo o Film Erzählt Musik em Colonia e Stuttgart na Alemanha.


produção executiva CAROL DANTAS
roteiro de edição GEORGE QUEIROZ
montagem GEORGE QUEIROZ / ROGÉRIO VELLOSO / PAULO MENDEL
pesquisa de conteúdo MAURICIO PEREIRA
pesquisa de imagens SOLANGE SANTOS
direção de produção CRISTIANNY ALMEIDA
assistente de direção e decupagem MARIANA FAGUNDES
fotografia HELCIO "ALEMAO" NAGAMINE
câmera HELCIO "ALEMÃO" NAGAMINE / ROGÉRIO VELLOSO / MARIANA FAGUNDES / DIEGO GARCIA
edição de som e mixagem SERGIO FOUAD



[ficha técnica completa no final da página ︎]



"Daquele Instante em Diante" é parte da Série Iconoclássicos do Instituto Itaú Cultural





Esta colagem abaixo foi o primeiro "argumento" sobre o filme que viria a ser o "Daquele Instante em Diante".





O que já disseram / escreveram / falaram sobre o filme "Daquele Instante em Diante" na imprensa e na blogosfera:




A Guerra entre Itamar e seu Tempo
O público já não olha Itamar com uma visão externa, sofremos na carne os seus dramas, pensamos principalmente na condição da cultura no Brasil, o buraco é mais embaixo, uns choram, outros se revoltam e Itamar para surpresa de todos continua a derramar belezas, tal qual uma grande gargalhada de desespero, ofende e fere com tanta beleza.

por Kiko Dinucci. Leia mais: O Olho Derramado






Tachado de “maldito”, Itamar Assumpção é dissecado em filme
Ao final da montagem vertiginosa, quem ainda não havia compreendido compreende sem dificuldade a estirpe de Itamar Assumpção, em cujas veias de sangue negro corria toda a música popular brasileira, além de boa parte da mundial.
por Pedro Alexandre Sanches. Leia mais: iG Cultura






Retrato à altura de Itamar
Velloso mergulhou fundo na obra e na vida pessoal do genial artista para mostrar os “vários Itamares”: o compositor, o poeta, o performer, o amante das plantas (especialmente as orquídeas), o homem caseiro, o gênio incompreendido, o controlador irredutível de tudo o que envolvia sua criação, o parceiro de tantos outros talentosos contemporâneos.
Por Lauro Lisboa Garcia. Leia mais: Estadão/Cultura






Itamar Assumpção no Cinema. E de graça.
Quem não o conhece vai se sentir envergonhado, no mínimo. Quem já o admira, não diga que eu não avisei.
por Luiz Chagas. Leia mais: Revista Brasileiros






Filme resgata a ainda obscura arte de Itamar Assumpção
“Daquele Instante em Diante”é uma oportunidade e tanto para entrar em contato com a música e o jeito de ser de Itamar Assumpção. (…) Alice Ruiz vai mais longe: “era difícil ser Itamar Assumpção”. Mas era uma delícia assistí-lo. E “Daquele Instante em Diante” vale quase um show de Itamar. Avaliação: Ótimo.
por Morris Kachani. Leia mais: Folha de São Paulo






Itamar Assumpção ganha documentário à altura de sua obra
É no tom do corpo em movimento que o diretor Rogério Velloso procura os entrevistados de seu filme. Pop, porém não popular, Itamar é construído coletivamente a partir das memórias dessas pessoas, bem como nos vários trechos de shows coletados do acervo de várias emissoras e produtoras nacionais. A edição de imagens, nesse sentido, chega a ser heróica, até porque é muito fácil se seduzir pela imagem e voz de Itamar, difícil mesmo é fazer aquilo que o (sic) ‘vanguartista’ não se permitia: editá-lo.
por Carol Almeida. Leia mais: Terra / Cinema






Nego Bendito
Duas características do músico Itamar Assumpção (1949-2003) impõem-se como unânimes aos que conviveram com ele. Era genial e era difícil. Mas o documentário Daquele Instante em Diante, estreia prevista para o dia 8, procura olhar entre uma condição e outra.
por Orlando Margarido. Leia mais: Bravo! Carta Capital






Documentário mostra o talento de Itamar Assumpção
“Morto há oito anos, Itamar Assumpção foi um dos alternativos mais cultuados no Brasil. O documentário Daquele Instante em Diante conta a carreira do músico.“.
por Nelson Motta. Assista: Jornal da Globo





Itamar Assumpção: uma ode à independência
Ao final de Daquele Instante em Diante, ao vê-lo cantar a capella os versos de “Dor Elegante” - “ópio, édens, analgésicos/ não me toquem nessa dor/ ela é tudo que me sobra/ sofrer vai ser a minha última obra” - totalmente emocionado, por um momento pensei em Itamar como um herói, ou mártir, além de iconoclasta, da música independente brasileira..
por Carlos Freitas. Leia mais: Revista Piauí





Itamar Assumpção
Depois de derramar baldes de lágrimas com o filme “Daquele Instante em Diante”, dirigido por Rogério Velloso, resolvi voltar aos meus textos sobre música. E nada mais oportuno do que falar sobre Itamar Assumpção..
por Rogério Skylab. Leia mais: Godard City






Itamar nunca é demais
Sou incapaz de dizer o quanto fiquei emocionada ao ver o filme. Tanto que saí do cinema sem falar com ninguém. Todos sabem da minha admiração pelo artista e do meu carinho imenso por Itamar
Por Patrícia Palumbo. Leia mais: Patrícia  Palumbo






Chegue mais perto de Itamar Assumpção
Uma imagem rara de alguém que não poupou ninguém no palco. Sair ileso de uma apresentação de Itamar era impossível. E Rogério Velloso conseguiu o mesmo com “Daquele Instante em diante”. Inesquecível e impecável.
por Ricardo Morais. Leia mais: Natura Musical







Itamar além do senso comum
Um elemento interessante no filme é a destreza com que ele se posta além dos clichês sobre Itamar – em especial o mais batido deles, o do “artista maldito”. Ciente da força que o trabalho do biografado tinha ao vivo, o diretor deixa as imagens falarem por si e vai tecendo uma trama intuitiva, emocional, de um pesquisador sério e apaixonado, que deixou fatos e depoimentos falarem mais alto do que ideias preconcebidas. (…)  “Daquele Instante em Diante” é um filme obrigatório a todo interessado em música brasileira e a qualquer compositor que deseja produzir algo relevante
por Mateus Potumati. Leia mais: Revista +SOMA






Transbrasileirado
Um filme que não dá as respostas, mas pergunta o tempo inteiro. (…) O fato é que os depoimentos e as imagens dão conta da grandeza de Itamar Assunção, assim como da sua fragilidade, ao contrário do filme de Bressane, onde todos estão míticos, pois são míticos. À sua maneira, frágil/forte, Itamar também é mítico.
Por Paquito. Leia mais: Terra MAGAZINE por Bob Fernandes






O Rei da Cocada Preta
Ao sair do cinema eu descobri que esse Beleléu é muito mais que meu pobre Ipod cheio de suas canções. É muito mais que as perguntas que sempre fiz para todos os seus amores. Itamar Assumpção é um enigma, um remédio sem bula, um GPS que dá pistas falsas.
por DJ Zé Pedro. Leia mais: DJ Zé Pedro





O que Rogério fez com Itamar não se faz
e foi só eu me sentar na poltrona da casa de meu amigo Guhan, onde nos hospedamos, no Jardim Botânico, para tomar um café e um susto. Ao olhar um tijolinho no jornal, estava lá: Arteplex, Botafogo, 18 horas, »Daquele Instante em Diante«. [...] A película de Rogério Velloso é, a meu ver, o mais importante documentário sobre música brasileira lançado no país nos últimos dez anos.
por Felipe Tadeu: Nova Cultura / Alemanha







Documentário resgata rebeldia de Itamar Assumpção
Nem por esses momentos o filme é nostálgico. Faz justiça, na medida do possível, ao legado do músico e, como um bom documento de época, renova uma memória que não deve mesmo ser esquecida.
por Neusa Barbosa. Leia mais: UOL Cinema / Cineweb







De Óculos Escuros
“De óculos escuros com armação branca futurista, camisa básica e a língua afiada, Itamar Assumpção dá entrevista para um extinto programa musical da TV. “Daqui a 50 anos eu sou história? Ou Não? Ou é mais um que passou?”.
por Estefani Medeiros. Leia mais: UOL Entretenimento







O Nego Dito no tempo de um café
O bem e o mal de Itamar é revelado em sua extensão por Rogério Velloso no documentário que põe luz, com muita competência, sobre a arte de um dos artistas mais incompreendidos da música brasileira. E o o faz sem desgaste, sem firulas, em jogo aberto de entrevistas.
por Adalberto Meireles. Leia mais: C de Cinema




Retrato complexo
“Com muita simplicidade, “Daquele Instante em Diante” consegue – após quase duas horas intensas de sons e imagens – um retrato falado de Itamar que parece soar muito parecido com o que ele deveria ser na realidade: complexo, provocante, idiossincrático, genial. Não era de se esperar menos de um documentário sobre um homem que pensava “em seduzir você domesticando elefantes”. Vá ao cinema… e leve um amigo…
por Marcelo Costa. Leia mais: Scream&Yell




O gênio das orquídeas
“Um gênio! Não há palavra melhor para definir o músico e compositor Itamar Assumpção. Um artista inventivo, ousado e performático. Homem sangue quente, colorido, agridoce, pirado, bendito e grande conhecedor de orquídeas. Ele as entendia, e elas a ele…
por Ana Cecília Soares. Leia mais Diário do Nordeste



























CRÉDITOS

"DAQUELE INSTANTE EM DIANTE"


é parte da Série Iconoclássicos do Instituto Itaú Cultural.



realização INSTITUTO ITAÚ CULTURAL & MOVIEART




direção ROGÉRIO VELLOSO
produção executiva CAROL DANTAS
roteiro de edição GEORGE QUEIROZ
montagem GEORGE QUEIROZ / ROGÉRIO VELLOSO / PAULO MENDEL
pesquisa de conteúdo MAURÍCIO PEREIRA
pesquisa  de imagens SOLANGE SANTOS
direção de produção CRISTIANNY ALMEIDA
assistência de direção e decupagem MARIANA FAGUNDES
fotografia HELCIO “ALEMAO” NAGAMINE
câmera HELCIO “ALEMÃO” NAGAMINE / ROGÉRIO VELLOSO / MARIANA FAGUNDES / DIEGO GARCIA
edição de som e mixagem SÉRGIO FOUAD
logger e primeira assistência de câmera DIEGO GARCIA
segunda assistência de câmera  RIVERTE “BABU” CRUZ
operador de audio MÁRCIO TEIXEIRA
assistência de produção e arquivos  MONICA MÉDICI
motorista  ÉLCIO CACHIATORE
sonorização ESTÚDIO SAX SO FUNNY
mixagem 5.1 SÉRGIO FOUAD / CLEMENT ZULAR / ESTÚDIO ÁUDIO PORTÁTIL
assistência  de mixagem FLAVIO PEREIRA / BRUNO CAMARA
videodesign RICARDO FERNANDES
letreiros RICARDO FERNANDES / RICARDINHO FILOMENO / GUILHERME PULICE / WAGNER VIANA
stop motion e videoarte ROGÉRIO VELLOSO
encerramento: obra livremente derivada de “O Homem Polvo” de Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz Chagas
ilustrações originais de ITAMAR ASSUMPÇÃO
coordenação de finalização DIULLE SORRENTINO / MARCELO BARROS / ISABEL MATTOS
assistência de montagem e finalização FEZÃO BARBIERI
cobertura on line  &  imagens de arquivo FRANCISCO MOSQUERA
assistentes de finalização ELTON BRONZELI / RAFAEL ELAMES / KAUÊ BREGOLA / BRUNO RAZUK
suporte técnico PIXEL TECHNOLOGY / LUIZ CAMPEDELLI / RENATO SOUZA
pós produção DOT
direção geral de pós-produção JOSÉ FRANCISCO NETO, ABC / FERNANDO FRAIA
coordenação de pós-produção GIBA YAMASHIRO / GLEICE LICA
atendimento de pós- producao MAGALI WISTEFELT
color grading MARCO OLIVEIRA / JUNIOR XIS
coloristas assistentes ALEXANDRE CRISTOFARO / RAFAEL YAMIN
edição on line HENRIQUE REGANATTI / TADEU PARRILO FREDE
estagiária MARTA TELES / GUSTAVO VEIGA
telecinagem super 8 mm ESTUDIOS MEGA – Rio de Janeiro
produção MOVIEART
coordenação de produção CLAUDIA REGINA DE MORAES
gerência administrative ELIANA IZIPETO
gerência financeira MÁRIO ARINO
secretária de produção TATIANA BARBOSA
coordenação de tráfego MARIA APARECIDA DE SOUZA
contabilidade JOSÉ PEREIRA DE SOUZA
coordenação de estúdio VANDERLEY SENA SILVA
contra-regra ANA BARBOSA
transporte VALDIR SEVERINO  / RONALDO DE FREITAS / JOÃO INÁCIO DE AQUINO



FONTES E ACERVOS


ARQUIVOS DE IMAGENS
Acervo Palodini / TietêCelso MaldosChroma TV / Rainer SkibbCinemateca BrasileiraClaudia MissuraHelena Maura/Thiago TaboadaFrancisco MarquesGafieiras.org.BRGullane FilmesJulio MalufMarcelo BranganceiroMarcelo Tas/ Olhar EletrônicoMauricio DiasMIS / Museu da Imagem e do Som/SPNá OzzettiOscar Rodrigues AlvesPaulino  TarrafRede GloboRicardo SimõesRobson TimóteoSBT - Sistema Brasileiro de TelevisãoSergio RoisenblitzTadeu JungleToniko MelloTV BandeirantesTV CulturaTV Gazeta
FILMES
“Cidade Oculta” / Chico Botelho
“Nêgo Dito” / Mauricio Dias/Aleph
“Mapas Urbanos” / Daniel Augusto/ Grifa
“Por que não pensei nisto antes” Sergio Roisenblitz
“Vozes do Brasil Doc (0) mentado “Helena Maura e Thiago Taboada
“Geraldo Filme”  /  Carlos Cortez/ Gullane Filmes
“Meus amores no Rio “  /  Carlos Hugo Christensen
"Rumos Sé"  /  Paulino Tarraf


ACERVOS FOTOGRÁFICOS
Oscar BastosCarlos ManciniCarlos VerçosaJairo Torres
Jorge Araujo / FolhapressHomero Sergio / FolhapressMarlene Bergamo / FolhapressRicardo CukiermanRubens ChavesVânia ToledoVange Milliet















PARECE QUE FOI ONTEM


[O texto a seguir foi publicado originalmente no box que reuniu toda a Série Iconoclássicos em DVD, lançado em 2012 pelo Instituto Itaú Cultural]


Não saberia dizer como começou a conversa. Mas ele estava ali do meu lado, em pé com seus cabelos rastafari, uma roupa surpreendentemente discreta. Já me acostumei com seus óculos escuros, que não me parecem mais tão extravagantes. Mas, por algum fenômeno, conseguia ver, através deles, os seus olhos. E eles me observavam com atenção calma e grave, em silêncio. Como se a conversa já tivesse sido longa, eu perguntei: – “mas, Itamar, o que você quer dizer afinal?”. A pausa que se seguiu foi extensa – eloquente demais – e eu acabei acordando sem saber a resposta. Já era a manhã do dia 05 de julho de 2011. Logo mais à noite, em seis salas lotadas no Arteplex Unibanco Frei Caneca, “Daquele Instante em Diante” seria finalmente lançado e entraria em cartaz na sexta-feira seguinte.

Essa talvez tenha sido a grande questão com a qual me envolvi ao longo dos quase três anos que me separavam de um certo dia em 2008 quando, ainda incrédulo, desliguei o telefone. Do outro lado da linha, uns poucos minutos antes, Roberto Moreira S. Cruz havia me feito o convite sem rodeios: vamos fazer um documentário sobre Itamar Assumpção?

Vejamos: Itamar Assumpção foi um furacão que marcou a música popular brasileira nas últimas décadas do século XX e se foi em 2003 aos 53 anos de idade, vítima de câncer. Deixou atrás de si uma obra colossal e avassaladora, cuidadosamente construída literalmente às suas próprias custas (não por acaso, título de um de seus discos), quase uma guerrilha, lutando para gravar seus discos da forma possível, totalmente à revelia da chamada “indústria cultural”. Sua vida foi marcada por uma intransigente e inabalável busca por coerência e integridade, o que acabou lhe custando o rótulo de “maldito”. Não deu outra: minha primeira sensação diante daquele telefonema foi a de total assombro. Reconstruir em um filme uma personagem desta magnitude era uma tarefa que me deixou por meses andando em círculos.

No princípio, eu fiquei ali perseguindo idéias de dispositivos e estratégias para construir um documentário num “modo seguro”. Diante do tamanho do Itamar que ia surgindo na minha frente, estas “sacadas” mais me pareceram uma busca imatura por uma “linguagem moderna”, um sinal de auto-afirmação bem ingênuo. Itamar era muito maior. E diante do que ele fez, qualquer tentativa de tradução que fosse contaminada pelo desejo de “autoria” soava como um tremendo desrespeito a uma obra gigantesca e multifacetada que agora vai tomando seu lugar. Foi só quando me voltei a ele e comecei a perseguir sua voz em primeira pessoa é que ficou nítido que eu tinha que ter, antes de mais nada, um compromisso com o resgate desse artista genial. Não haveria saída: tinha que correr o risco de um mergulho desarmado em seu universo, me deixar levar pela intuição, pelo espanto, pelas descobertas, sem roteiro ou idéias pré-concebidas. Ele me conduziria. De alguma maneira.

O fato é que aquelas questões formais da primeira hora íam se transformando e encontrando novas respostas. Foi-se descortinando um Itamar que chegou até aqui em fragmentos bem dispersos: foi guardado nas memórias (com todas as contradições possíveis) e pelos cantos das casas de seus amigos, no fundo das gavetas, pregado em ímãs nas portas das geladeiras, espalhado em pilhas de fitas cassetes, em caixas, arquivos, cartazes, filipetas, fotografias, porta-retratos, xerox, recortes de jornais, anotações, desenhos, cadernos, pastas, bilhetes, long-plays de vinil. A profusão de formatos pediam uma cuidado no seu resgate histórico. Achei importante mantê-los com a cara de seu tempo (as fitas magnéticas e seus drop-outs, os chiados analógicos, os grãos esmaecidos – fizemos questão de preservar as janelas originais dos materiais em vídeo). O trabalho de restauração de sons e imagens (compilados de mais de 150 horas de arquivo) seguiam apenas até o ponto de torná-los mais inteligíveis, nunca de torná-los limpos, ascépticos, desprovidos de sua rudeza original. E mesmo o registro de imagens novas vieram carregadas com o tom da urgência, da mistura: ora eram feitos na forma de fotografias sequenciais e depois animadas, ora com o suporte de formatos digitais HD extremamente portáteis. Fazer um retrato de Itamar Assumpção passou a ser uma colagem destes fragmentos, o tempo todo tão sincera quanto possível. O tempo todo procurando ouví-lo nas sincronias, nas coincidências, nos detalhes. E estavávamos fazendo da forma mais livre, seguindo os acontecimentos. Acho que o Itamar iria querer que fosse assim.

“Mas, Itamar ... o que você queria dizer afinal?” Naquela manhã de julho, perguntava naquele sonho com a nítida sensação de que eu seria, por fugazes segundos, um porta-voz diante das platéias que se seguiriam. Para ser bem honesto, não soube e não sei a resposta – que, afinal, devem ser muitas diante de sua arte tão inusitada quanto contundente. Mas ao indagá-la milhões de vezes, meses a fio, não passei incólume pelo processo. Ao perseguir Itamar Assumpção, me surpreendi perseguindo a mim mesmo, conhecendo e dissolvendo os meus limites diante da exposição radioativa à sua coerência. Fazer este filme foi um marco em minha vida. No fundo, acho agora que era isso mesmo: a mim coube fazer perguntas (muitas a mim mesmo). E através delas, de alguma forma, Itamar se colocou em movimento. Eu me sinto muito honrado por isso. E extremamente agradecido.


Rogério Velloso


[Não se faz um filme sozinho. E fazer “Daquele Instante em Diante” foi um processo rico tocado por muitas pessoas. Foi fundamental a participação do George Queiroz, que colocou ordem no caos e propôs a estrutura do filme, do Maurício Pereira, ajudando a mapear a cena paulistana de vanguarda e que, junto com a Carol Dantas (grande parceira e produtora executiva do projeto), do Roberto Moreira S. Cruz, do Edson Natale e do Hélcio Alemão Nagamine foram interlocutores criativos imprescindíveis, da Solange Santos, que pesquisou e reuniu todo o material de arquivo, da Mariana Fagundes, que fez minha assistência e organizou a decupagem, do Paulo Mendel que mergulhou nos acervos iniciais e depois na montagem com o George e comigo, do Serginho Fouad na edição de som e do Clement Zular no trato sonoro, do Francisco Mosquera e sua paciência de monge na (re)montagem online, da turma da CinePro/DOT que trouxe o filme para a tela grande, do Paulo Dantas e da equipe da Movieart, que nos permitiu ter fôlego (!),  e do Eduardo Saron e da equipe do Instituto Itaú Cultural, arquitetos deste projeto essencial, a Série “Iconoclássicos”. Preciosíssima e um tremendo privilégio foi a cumplicidade da família Assumpção, que nos alimentou o tempo todo com sua confiança. A eles e a todos os que carinhosamente dividiram suas memórias conosco, agradeço. RV ].

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